Em sua 3ª temporada a série original Netflix, Narcos, nos leva para a cidade de Cali, na Colombia. Veja nesse vídeo a história real do homem que inspirou essa temporada e os eventos colocados em marcha através de suas atitudes. Descubra o que há de surrealmente real e magistralmente criado nessa que, para mim, é uma das melhores obras televisivas dos últimos anos.

Onde estão os personagens de Narcos hoje?

Jorge Salcedo, foi consultor nessa terceira temporada de Narcos. Através da sua história foi possível para os roteiristas amarrar ficção com fatos da realidade.

O envolvimento de Jorge com o cartel de cali começa quando ele é “convidado” para usar seus contatos de ex-militar com um grupo de mercenários britânicos que poderiam ajudar nos planos do cartel para matar Pablo Escobar. Algo que Jorge poderia facilmente justificativar, já que daria fim às matanças do chefe de Medellin…

Quando você é colombiano, acaba se acostumando com algo que não seria concebível de outra forma. Nosso país nunca esteve em paz. Eu vivi o tempo todo sob circunstâncias violentas.

(Jorge Salcedo em Entrevista para o This American Life)

Quando Escobar morre, Jorge tenta sair mas já está muito afundado na organização criminosa.

E basicamente, a conversa foi: “Minha missão está terminada. Fico feliz que nada aconteceu com sua família e você. Mas é hora de eu retomar minha vida original, de anos atrás”. E ele disse: “Não, não, não, Jorge! Você é muito valioso. Nem pense nisso. Tempos muito melhores virão”

(Jorge Salcedo em Entrevista para o This American Life)

6 anos de crime

Foram 6 anos, não 6 meses, até Jorge finalmente se desvencilhar da KGB de Cali.

Jorge escolhe salvar a vida do homem que ele supostamente deveria ter mandado assassinar: o contador Guillermo Palamari, que se tornaria fundamental para a condenação dos seus chefes. Acontece que Guillermo, sendo chileno,  estaria vulnerável a um julgamento em cortes Estadunidenses. Sendo assim um elo fraco para esse cartel protegido pelas leis colombianas de extradição.

Jorge então procura pelos agentes norteamericanos… de uma forma um pouco menos cinematográfica que aquela ligação anônima da série. Ele apenas ligou para o telefone do escritório da CIA e pediu para uma atendente chamar algum investigador. O que no caso não deu certo.

Com alguma dificuldade ele finalmente consegue o contato do Agente Chris Feistl, que também é uma pessoa real e consultor nessa temporada, e seu parceiro Dave Mitchell, que teve o nome trocado porque ainda trabalha para o DEA.

Quando Jorge chegou e começou a andar até nós, meu parceiro, Dave, disse: “Ei, Jorge, nós parecemos Americanos o suficiente? E isso meio que quebrou o gelo, porque obviamente era um momento tenso pra ele tanto quanto pra gente. E Jorge sorriu, ele riu um pouco. Então fomos aos negócios.

(Chris Feistl em Entrevista para o This American Life)

Nas duas tentativas de prender Miguel Rodríguez, o informante de codinome Patrícia foi fundamental para entregar os esconderijos e repassar informações internas da organização… enquanto as operações aconteciam. Sempre remotamente. Nunca em campo.

Ah E não… as mortes de Henrique e Navegante que dão um tom de complexidade ao personagem de Jorge na série não devem nada a realidade. Ponto pra ficção.

Mais estranho que a ficção

Mas muitos detalhes surreais das operações são verdade: na primeira investida para capturar Miguel Rodrigues ele estava escondido atrás da parede do banheiro. No mesmo dia, policiais encontraram o tanque de oxigênio e as toalhas ensanguentadas, indicando que a furadeira possivelmente o atingiu.

Nessa mesma operação foram usados os caminhões de Frango como um transporte secreto das forças armadas, não na prisão do irmão Gilberto Rodrigues como a série mostra de forma magistral.

Por falar nos chefões do tráfico. Dessa vez a série toma mais liberdades narrativas do que com Escobar, afinal existem muito menos registros sobre o dia a dia dos senhores de Cali.

Sabe-se que Pacho, ou Helmer Herrera, o mais jovem dos sócios, era abertamente gay e o responsável direto pelos atos mais violentos do cartel junto com seus sicarios.

E que Jose Santacruz Londono, o Chepe, teve suas operações em Nova York investigadas pelo Jornalista Manuel de Dios Unaue, que logo foi assassinado em um bar no queens. Não pelas mãos do próprio Chepe, eu acho.

Narcodemocracia

Você deve ter percebido que eu não falei do Agente Peña. Isso porque ele não passou nem perto das operações em Cali. Nessa temporada ele se tornou a mistura de vários agentes do DEA que contribuíram nas operações. Entre eles, Joe Toft, que deu a tal entrevista para a mídia colombiana denunciando o que chamou de Narco-democracia. O que escancarou a urgência das mudanças que o País precisava. Foi só quando as leis que impediam a extradição caíram, que os dias áureos do cartel chegaram ao fim.

Quando concordei em ajudar os agentes de combate às drogas americanos há 16 anos*, o Cartel de Cali estava fazendo $7 bilhões ao ano. Documentos do cartel entregues às autoridades Colombianas revelaram uma vasta rede de corrupção. Houve indignação pública. Prisões e demissões em massa vieram, e as amarras da corrupção foram quebradas.

(Jorge Salcedo)

Enquanto esperamos a confirmação dos temas da quarta temporada e o futuro do Agente Peña, a realidade é que nos dá pistas do que nos espera nos próximos capítulos:

Isso foi o que derrubou o cartel de Cali, e que pode fazer a diferença em outros países onde uma cultura de aceitação faz a corrupção ainda mais persistente. (Jorge Salcedo)

Enquanto houver demanda de drogas nos Estados Unidos. Enquanto houver um país latino tomado por corrupção…

Haverá Narcos.

Fontes de pesquisa:

+ What I saw inside the Cali drug cartel – CNN
+ 469: Hiding in Plain Sight – This American Life
+ DELATAR SI PAGA – Semana
+ Narcos: The real Jorge Salcedo talks about what the show gets right – EW
+ The Real DEA Agent of ‘Narcos’ Breaks Down What Season 3 Got Right – Hollywood Reporter
+ DEA AGENT ATTACKS COLOMBIA AS ‘NARCO-DEMOCRACY’ – The Washington Post
+ ‘Narcos’ Boss on How the Story of the Cali Cartel Unfolds in Season 3 – Hollywood Reporter:
+ Colombia, una “narcodemocracia” – El País
+ La verdadera historia del chileno de la serie “Narcos” – LUN
+ Discover the Arizona connection in new season of Netflix hit ‘Narcos’ – Azcentral
+ A DOZEN KILLINGS TIED TO COLOMBIA – The New York Times
+ Seven Indicted In 1992 Slaying Of a Journalist – The New York Times
+ Facing Escobar – NatGeo